O próximo seminário já se aproxima e coincidentemente – ou não – é o nosso. Esboçando o início (início, pois espero que o grupo dê continuidade) de uma série de assuntos relacionados ao livro Utopia, de Thomas More, começo hoje falando sobre a ilha, não especificamente a de More. Falo das ilhas que nos cercam por todos os lados e qual a significação impressa em sua imagem.

“Porção de terra cercada de água por todos os lados” é a definição empírica para as ilhas. Porém, seu significado usual vai muito além disso. Elas sempre foram sinônimo de algo isolado, muitas vezes melhor que a realidade, outras, não pior, mas diferente. A Utopia, ilha idealizada por Thomas More, esboçou a existência de um socialismo perfeito, mais tarde chamado de socialismo ‘utópico’ – termo que surgiu graças a More e denota impossibilidade.
Sobre as ilhas atuais, começo lembrando da Al Jazeera (“a ilha” em árabe). Canal de notícias do Catar e primeira rede de televisão árabe independente, não controlada pelo Estado e mantida pela verba de anunciantes; faz juz ao nome: em meio a um mar de areia e uma cultura extremamente conservadora, onde governos dificilmente permitem uma mídia mais atuante e opinativa, ela vai na contramão e sempre impressiona o mundo por sua independência editorial em coberturas polêmicas, como a guerra do Iraque, por exemplo.
Na ficção, Lost, o seriado de maior sucesso nos últimos tempos, narra a história de sobreviventes da queda de um avião em uma ilha misteriosa, em algum lugar do pacífico. Dizem que os personagens de Lost vivenciam um tipo de utopia social na ilha; não era exatamente a que o Sr. More imaginava, mas da pro gasto.
Em grandes cidades, como São Paulo, por exemplo, são comuns as ilhas de calor. Trata-se de um fenômeno que ocorre sobre grandes centros urbanos e consiste na presença de temperaturas maiores nas cidades que as encontradas em seus arredores; tudo isso em função dos chamados isolantes térmicos artificiais (asfaltos, concretos etc.) entre outros fatores que modificam as características naturais da região.
Na literatura, ilhas são estimados objeto de inspiração e cenário para os mais diversos tipos de contos, romances e poesias. José Saramago e Carlos Drummond de Andrade são exemplos de grandes autores que se renderam a mistificação e a amplitude de significados que só a sua imagem pode proporcionar.
Enfim, ilhas sempre foram – e continuam sendo – uma imagem genérica. Designo comum de lugares atípicos e lugares-comuns para realidades atípicas. Torna-se inteligível, portanto, o fato de Thomas More ter escolhido uma ilha para a idealização de seu projeto impossível.
Por Leonam Bernardo.