Se a matéria garantida das últimas semanas de julho era sobre o Pan, o acidente da Tam surgiu para quebrar a monotonia das notícias ou apenas reforçar a falta de ciclicidade das informações na imprensa?
E assim começa mais um bimestre. Se há quase um mês fora Renan Calheiros e há um ano “o tal” do Roberto Jefferson os participantes do grande espetáculo midiático brasileiro, dessa vez os jornalistas não conseguiram se decidir.
Durante a exibição dos Pan-Americanos, tanta coisa quis acontecer junta. O povo decidiu vaiar Lula, e depois vaiar os adversários. O Brasil ganhou um ouro nos primeiros dias, e continuou fazendo sua pontuação crescer para chegar num admirável terceiro lugar na classificação geral. O pessoal decidiu relembrar o patriotismo apesar de não saber o nome de 10% dos brasileiros que estavam lá competindo por medalhas (e que ainda não sabem os nomes daqueles 90% que não conseguiram colocar a mão no acrílico que envolvia os metais tão desejados).

pra quem?
Estava tudo programado: o Pan seria noticiado constantemente nas três emissoras abertas que se dispuseram a exibi-lo – Globo, Record e Band – e nada poderia quebrar essa unicidade de notícias. As atividades desportivas se tornariam o centro das atenções pelo período de 17 dias que envolvesse os acontecimentos, e não se esperava nenhuma notícia mais importante durante esse período. As acusações contra Renan Calheiros, a violência do Rio, o caos aéreo, tudo isso passou para segundo plano pelo simples orgulho do brasileiro que não desiste nunca poder assistir às equipes universitárias dos EUA vencerem grande parte das modalidades disputadas no tal do BrasilBrasileiro.
A monotonia da notícia foi quebrada pelo nem tão surpreendente, mas terrível impacto do Airbus que levava o vôo 3054 no trajeto Porto Alegre – São Paulo. O acidente surgiu como furo para as emissoras que exibiam os jogos. Instantes após o impacto, os jogos foram deixados de lado por cerca de duas horas. Nada mais importava do que conseguir alguma informação certeira sobre o choque do avião contra o prédio. Notícias erradas eram transmitidas, o número de mortos no acidente crescia a todo momento. Surgiu uma disputa instantânea sobre o primeiro a conseguir o dado mais preciso ou a declaração mais bombástica de qualquer que fosse o órgão – Governo do Estado, Anac, Tam – ou pessoa – “oi, pedestre, você sabe o que está acontecendo?”.

SAI, TÔ FILMANO
Nos dias seguintes, as dúvidas eram evidentes e perduravam. Exibições de jogos eram subitamente interrompidas para que novas imagens fossem exibidas. Entre o “GOOOOOOOL” do Galvão e um prédio já condenado, a distância era de 30 segundos. E o que separava a Ana Hickmann e a “traseira” do avião era a notícia de uma nova medalha.
Diante de situações como essas, em que duas grandes notícias devem ser transmitidas, como distinguir a que mais interessar ao espectador? E o que dá a essas informações o valor de relevarem as demais? Seria pretensioso esperar de um jornalista que ele busque fatos diferentes e que fujam do lugar-comum [ainda que momentâneo] para mostrar ao seu público?
Resumindo: Por mais que tenha valor noticioso um acontecimento trágico como a queda do avião ou festivo como a realização do Pan no Rio, não é aceitável que se neguem os demais acontecimentos. Dissecar um assunto à exaustão torna a busca pela notícia maçante e previsível. Por que gerar essa domesticação no público?
Às vezes o problema está nele mesmo. Talvez seja hora de o povo acordar e perceber que o mundo não é vivido só de fatos importantíssimos e de gigantes proporções. O mínimo também faz diferença, não deve ser subestimado, e é muitas vezes dele que surge o glorioso e inesquecível.
Algumas vezes a equação parece mais simples que isso. Ibope enche a barriga do Bonner e dos três pequerruchos… mas a busca por ele mata a consciência crítica de quem assiste.
Dá-lhe vídeo amador neles, cinegrafista anônimo! E que venham dedos apontados, culpados mortos e “Deus que nos proteja” nos próximos vôos…

assim seja
Por Camilla Rolim.
p.s.: E a greve do metrô veio aí pra atolar a mídia mais uma vez, eô, eô!